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E porque não eu?

terapia de reflexão para mentes livres e com paciência, SA ou Lda não interessa, pelo menos pensar não paga impostos

E porque não eu?

cruz de Ferro

por António Simões, em 12.02.21

Símbolo intemporal que veio dos confins históricos do reino da Prússia, passando pelo império alemão, apimentada com a suástica nazi durante o período mais negro da história da humanidade, pertencia no meu imaginário e na minha cultura geral a um tempo pretérito. Hoje ao passar ao de leve pelas notícias, fiquei num estado de quase pânico ao verificar que ontem aterrou nestas (até agora) pacatas paragens, um avião com esse símbolo, e com o nome Luftwaffe. Ciente que Hermann Goering jaz pacificamente para bem da humanidade, fui colmatar a minha ignorância com uma pesquisa pela internet para ao mesmo tempo me tranquilizar, e colocar de lado o pior cenário que por momento pensei estar a assistir - tropas nazis a aterrar na tugalândia para gáudio de André Ventura e seus  sequazes. O motivo foi, pelo contrário, totalmente altruísta pois de terras germânicas chegam tropas para combater não a democracia, mas sim esta terrível pandemia onde estamos entrincheirados. Saciada que está a cultura geral e refreados os nervos do pânico inicial, venho por este singelo meio sugerir aos alemões da Alemanha que está na hora de trocar esse símbolo, pois apesar de ligeiramente distinto pela forma mais estilizada não deixa de provocar um certo nó ao nível gástrico. De caminho, poderiam mudar também o nome da força aérea, tal como o fizeram com o exército que passou de Wehrmacht para Bundeswehr. Com o andar da carruagem dos apaniguados da suástica que se espalham de forma assustadora pela Europa fora, estas confusões não abonam nada a favor da democracia e da sociedade actual...

presidenciais 21

por António Simões, em 09.01.21

Os agentes políticos da actualidade tem conseguido a proeza de alcançar uma coerência ao nível do interesse que despertam nos eleitores. Até aqui chega a boa notícia e o que se segue, para além de mau, não augura nada de bom para o futuro, sendo o presente uma boa mostra do que nos espera daqui para a frente. Se as taxas de abstenção mostram de forma matemática o que pensam os eleitores da política actual, os políticos de hoje são belos exemplares da decadência de uma sociedade que em pleno século XXI se julga informada, mas que nunca esteve tão à deriva num mar de desinformação. Tudo isto é a amálgama perfeita para colocar na cadeira do poder figuras como as que hoje temos nos EUA e no Brasil, e que servem de inspiração para qualquer louco que munido pelos amigos certos e os financiamentos adequados se julgue capaz de seguir em frente, seguindo o caminho por esses outros loucos trilhado. O vírus do populismo e do discurso do ódio que julgava enterrado encontra-se mais vivo que nunca, e nesta sociedade que passa mais tempo a exercer a fisioterapia do polegar no visor de um telemóvel encontra o hospedeiro perfeito, um corpo moribundo onde o sistema imunitário já pouco reage e para o qual não parece existir vacina eficaz. Essa vacina não aparece porque aqueles que poderiam desenvolve-la estão a ficar sem tempo, talvez sem paciência, e muito provavelmente deprimidos depois de anos de luta onde julgavam ter vergado esse vírus, ocupando o seu tempo elaborando terapêuticas orientadas para levar a humanidade para a frente, no caminho da tolerância pelo próximo, pela integração de uma sociedade cada vez mais complexa, evitando caminhos sinuosos que no passado nos conduziram a tempos duros. Estas eleições presidenciais tugas são um bom exemplo disto que por aqui vou devaneando. Tendo acompanhado alguns dos debates, o de ontem entre Ana Gomes e André Ventura foi o que me levou a escrever este texto. Para além da diferença óbvia das idades onde de um lado poderia estar uma mãe e do outro um filho, para além da evidência curricular de cada um onde de um lado estão décadas de luta e trabalho e do outro pouco de mais de uma dúzia de anos a fazer pela vida, o que vi foi uma tristeza estampada no rosto de Ana Gomes, apesar do seu constante sorriso que mais não era do que um disfarce de alguém que estava a cerrar os dentes perante um oponente mal educado, inflamado, intolerante e ganancioso. Essa tristeza revela algo em que penso frequentemente. Quem como ela, e mais velha que ela, viveu no tempo da ditadura e lutou para termos direito à liberdade, como aquela que neste espaço posso exercer, deve ser tristemente angustiante ver espelhado na figura de pessoas como a que ontem tinha à sua frente num debate político aquilo a que chegamos. Deve ser revoltante reconhecer que, apesar de todo o trabalho efectuado, o ódio e o populismo que não vê meios para atingir fins está mais vivo que nunca, e mesmo ao virar da esquina para chegar ao poder. Triste, mas actual.

diego armando Maradona

por António Simões, em 25.11.20

Numa altura em que a selecção nacional portuguesa quase nunca se apurava para as grandes competições, a minha paixão pelo futebol não se esgotava no apuramento, e sempre vivi os mundiais de futebol a torcer pela Argentina. Para isso foram decisivas duas coisas: a primeira, o facto do equipamento principal ser o mais parecido possível ao do meu Porto, com o azul a mudar apenas de tonalidade; a segunda pelo facto de lá jogar o melhor jogador de todos os tempos, ainda por cima esquerdino como eu. Do México 86 tenho poucas recordações, mas no Itália 90 sofri a derrota como se argentino fosse, e ainda me recordo de festejar a horas tardias o último golo que Maradona marcou nos EUA 94, antes da Mafia da FIFA se encarregar de o enviar para casa. Como se quer num génio, a sua dose de loucura foi servida em quantidades abundantes tanto ao nível da magia que espalhou no campo de futebol, como na paixão que mostrava sem qualquer restrição, fosse a que nível fosse. Hoje é fácil criticar e apontar o dedo na hora de acusar, mas eu prefiro seguir o caminho da indulgência ao avaliar que não teve a sorte e os recursos que hoje em dia protegem os afortunados, de um desporto jogado e seguido por milhões de pessoas. Diego Armando Maradona foi único e irrepetível, sendo a discussão sobre quem será o melhor de todos os tempos um tema sem qualquer tipo de sentido pois os gostos são subjectivos, as pessoas diferentes, os tempos não são os mesmos, e como ele mesmo disse no filme sobre a sua vida realizado por Emir Kusturica: "qué jugador hubiese sido yo si no hubiese tomado cocaína? ¡Qué jugador nos perdimos! Me queda el mal sabor de boca que hubiese sido mucho más de lo que soy..."

uma Década

por António Simões, em 24.11.20

A inexorável, lenta, paciente e perniciosa virulência do tempo é uma pandemia para a qual não temos, nem alguma vez vamos ter, uma cura ou vacina capaz de a combater. O tempo é cruel e frio, e olha com o seu desdém de superioridade de quem sabe que acima dele nada existe, incapaz de parar por um momento que seja a sua tenacidade em andar para a frente, segundo após segundo, minutos que depois se tornam em horas e dias que não param de cair de maduros das folhas do calendário, para alimentarem a sua insaciável voracidade. Foi ao olhar para o calendário que verifiquei que este blog completou no passado sábado uma década de existência. 10 anos! Este meu espaço não foi obviamente imune à virulência do tempo, e se anos ouve em que a escrita foi diária, ultimamente resume-se a algumas pontuações esporádicas. Sabendo que no fim a derrota é certa, podemos olhar para a sobranceria do tempo, olhos nos olhos, e mostrar com toda a nossa força que não nos deixamos vergar e que somos capazes de dar luta. Porque é disso mesmo que se trata, de uma batalha que no dia a dia temos que vencer, de não desanimar perante as adversidades, arquivar os maus momentos na nossa pasta de encaixe, e ser capazes de continuar, e tal como o tempo andar para a frente. O simples facto de hoje aqui escrever é motivo de contentamento para mim, porque desse modo mostro ao tempo que 10 anos não são suficientes para o eporquenaoeu desaparecer...

a rapariga no Gelo

por António Simões, em 26.09.20

Já lá vai algum tempo desde o último comentário a um livro que li. Estando em falta com este meu espaço, e com a necessidade de registar aquilo que a leitura de um livro me transmite, vou procurar agora repor tudo o que está em falta. Foi com este livro de Robert Brynza que iniciei um período essencialmente preenchido por literatura policial/acção que também faz falta e, não desfazendo a qualidade desta escrita e dos seus escritores, permite ganhar algum fôlego para outras obras e autores que exigem mais um pouco do leitor. Com a "Rapariga no Gelo" fiquei a conhecer a detective Erica Foster, os meandros da investigação criminal com os pormenores sórdidos da Medicina Legal, e aquilo que imaginação infelizmente fértil de uma mente humana deturpada de um assassino é capaz de fazer e alcançar. Fiquei curioso, e adianto desde já que li a série toda.

medo de Existir

por António Simões, em 23.09.20

Homo Sapiens Sapiens… até aqui chegamos! Partindo de um caldo primitivo muito pouco comum, de linha traçada de forma igual para todos, de entre bestas e bestiais o ser humano atingiu o patamar mais alto da linha evolutiva, ou pelo menos é aquilo que todos nós, como membros de uma mesma espécie, pensamos. Poderá estar encerrado nesta crença uma espécie de narcisismo colectivo, numa manifestação inequívoca daquilo que Mario Vargas Llosa classifica como o “apelo da tribo” e, como salvo prova contrária não temos qualquer outro membro de qualquer outra espécie que possa ou consiga refutar esta sobranceria, vou continuar nesta linha de raciocínio analisando o que levou o homem chegar ao trono do Olimpo, governando como um verdadeiro Deus esta bola que temos o prazer de habitar. Pergunto-me então qual terá sido o ingrediente secreto que levou a este sucesso!? a esta diferença colossal entre o animal que se tornou racional e os animais que não o são, e pese o facto de não dispor de conhecimentos dignos de registo, quer ao nível da zoologia, antropologia, sociologia ou psicologia, penso que como ser racional que sou tenho o direito de pelo menos tentar uma explicação lógica, que por vezes se encontra na mais simples das coisas, redundando estudos e investigações num resumo muito simples que os teóricos teimam sempre em complicar - o Medo. O homem não teve sempre medo. Nos tempos da pré-história, entre grunhidos e pancadas, o neandertal munia-se da mesma arma psicossomática que os restantes animais de então - o instinto - e à medida que o instinto lhe permitiu ter a sorte de descobrir elementos chave que lhe conferiram uma vantagem competitiva sobre os outros, como o fogo, o seu cérebro começou a aumentar, cabendo ao instinto o papel de permanecer na sua zona mais primitiva e escondida, dando lugar a coisas tão extraordinárias como o medo. Foi o medo, mais que o instinto, mais que a inteligência, mais que a curiosidade, que permitiu a esse animal humano progredir porque, ao contrário de todos os outros animais que continuavam munidos do instinto para sobreviver, descobriu que a sobrevivência mais não é do que uma luta da qual se sabe o resultado final, e o vencedor anunciado - o Medo de existir. A partir do momento em que ganhamos essa consciência embatemos numa realidade dura como uma parede de pedra robusta e inquebrável, e é exactamente nesse instante que recorremos às mais poderosas munições que a evolução nos trouxe, para mitigar a angústia da existência e junto com o instinto, arquivar ambos bem no fundo do iceberg da nossa mente. A partir de então gera-se a confusão entre a espécie humana porque o Medo, como as consciências, é diferente de acordo com a realidade de cada um. O resultado não poderia ser mais trágico, e a história é a melhor argamassa para cimentar a minha opinião, uma vez que com tantos anos de registos e aprendizagens ainda não aprendemos a viver uns com os outros, e no fim de contas, apesar de sermos humanos e racionais, temos Medo do próximo, da diferença, da incerteza, e tantas outras coisas que nos desperta o instinto que rapidamente vem à tona, e regressamos ao estado donde partimos. Se assim não fosse, as fronteiras há muito que tinham deixado de existir, a indiferença seria algo do passado e a sociedade seguiria o seu caminho evolutivo, em lugar de continuamente dar passos atrás.

carlos ruiz Zafon

por António Simões, em 19.06.20

Hoje o mundo da literatura perdeu uma pedra angular ao ver partir Carlos Ruiz Zafon que, cedo demais, caiu fulminado por uma doença que ceifa mais vidas do que qualquer pandemia deste ou de outro século. A inevitabilidade da nossa existência bateu à porta de um dos melhores escritores do século XXI e levou-o, deixando os milhares de leitores anónimos carentes de aventuras e histórias futuras. Não preciso de falar dos livros que dele li, pois isso já o fiz no passado, mas não podia deixar de prestar a minha singela homenagem com palavras do próprio, que tomo a liberdade de transcrever do prólogo de "O Príncipe da Neblina":

"Mas não veio a estas páginas para ouvir discursos, mas para que lhe façam cócegas no cérebro. Permitam-me, então, que o convide a viver as aventuras destas personagens que ainda me são tão familiares como no dia em que as conheci. A entrada não tem limite de idade, nem lugar marcado. Será bem-vindo a estas páginas quer seja um leitor veterano como eu ou um leitor jovem que mergulha na maior das aventuras, a de ler. Dentro de momentos apagar-se-ão as luzes, erguer-se-á a cortina da sua mente e o feixe do projector baterá na sua imaginação."

Sempre que leio estas linhas os arrepios não escondem, de forma involuntária mas consciente, a emoção que sinto ao ver traduzida de forma tão bela a relação simbiótica entre o escritor, o livro, o leitor e a leitura. Obrigado pela obra, pelas histórias, mas acima de tudo por ser capaz de por momentos voarmos sem sair do sítio.

confinamento Infantil

por António Simões, em 28.05.20

São mais de 4 meses desde a última entrada neste meu pequeno espaço de devaneio cibernético. Mas se para mais não servir, pelo menos fico com o consolo de escrever e depois ler, estabelecendo uma comunicação entre eu e mim mesmo. Muito pouco se passou desde que em Janeiro escrevi o meu último post, uma vez que a rotação da terra foi colocada em causa depois da paragem forçada pela pandemia da actualidade. No entanto, e para quem for um atento leitor deste espaço, há muito que acho que a nossa sociedade está doente de uma patologia que só tem a vantagem de não vitimar ninguém, ao contrário do que acontece com o COVID-19. Isso mesmo se comprova diariamente com as idas e voltas da recomendações científicas, com a bestialidade de dirigentes mundiais do calibre dos presidentes do Brasil e EUA, e com a contra-informação que mina os alicerces daquilo em que queremos acreditar. Acredito que o tempo não está para brincadeira, mas como tenho a infelicidade de pensar em tudo o que faço e vejo, só posso concluir com a mesma frase de Obelix "esta humanidade está louca". O confinamento a pouco e pouco vai-se desfazendo, mas entre as recomendações lógicas e oportunas, temos outras descabidas e acima de tudo incoerentes por onde a sociedade se vai guiando, regressando tudo ao quase normal. Ao normal, não! Recorrendo novamente à prosa de Goscinny, existe uma franja da sociedade que se mantém irredutível no seu confinamento obrigatório. Enquanto que os mais velhos (grupos de risco incluídos) retomam toda a sua actividade normal, às crianças continua a ser negado o direito a ser criança, de brincar a aprender uns com os outros. Ao dizer isto, não o digo no sentido de pedir que as Escolas abrissem normalmente, mas apenas no sentido de desabafar um sentimento de tristeza ao ver que tão cedo elas não podem regressar à sua vida de sempre. Continuem então a preocupar-se apenas com  a abertura de ginásios, cabeleireiros e hotéis, com a presença de banhistas a mais nas praias, com o regresso do futebol com ou sem público, mas pelo menos no dia 1 de Junho lembrem-se simbolicamente que é dia da Criança.

regresso às Cavernas

por António Simões, em 06.01.20

Existem dois fenómenos que competem em estilo, mas juntos assumem uma sinergia preponderante na hora de vilipendiar séculos de evolução humana na área da escrita - as abreviaturas e os emojis. Estes tsunamis activos de proporções épicas têm como epicentro a evolução das tecnologias de comunicação, criando um enredo que, apesar de honrar os cânones da tragédia clássica, traz consigo a nefasta realidade de uma autofagia intelectual globalizada. A aurora das mensagens escritas com caracteres limitados, que despertou o engenho e arte na hora de abreviar palavras, frases e sentidos, deu um golpe tenaz no romanticismo da correspondência, cuja existência foi suspensa na esperança de um e-mail mas quebrada pela estocada final, efectuada pelas redes sociais. São essas mesmas redes, a evolução natural das mensagens de texto, que acompanham a necessidade voraz de uma sociedade sem tempo para parar e pensar, e alimentam a queda intelectual traduzida em textos cada vez mais curtos e sentidos cada vez mais óbvios, onde um like e meia dúzia de emojis substituem a leveza de letras organizadas em palavras, palavras juntas para formar frases, e frase plenas de sentido. Pergunto-me eu em que diferem os emojis de um telemóvel actual e as pinturas rupestres dos nossos antepassados. Esses pelo menos ainda tinham o trabalho de preparar a tinta, pensar e desenhar o que queriam dizer...

inceneradora Eleitoral

por António Simões, em 16.09.19

Consultando um bom dicionário de tugalês, o leitor poderá confirmar que o termo urna pode assumir diferentes significados, dependendo cada um daquilo que com a mesma se faz. No fim de contas, a única coisa comum a todos é o facto de numa urna se depositar algo, sejam restos mortais, cupões de lotaria, rifas, ou boletins de voto. Em termos de sentimento as urnas eleitorais estão para o eleitor como as urnas dos cupões da lotaria para o apostador, vivendo ambos na expectante esperança que o seu boletim seja o feliz contemplado vencedor. No entanto, se a lei da probabilidade adverte o apostador para a mais que provável derrota no universo quase infinito do acerto impossível dos números vencedores, a lei dos homens deveria fazer o mesmo ao eleitor, parte essencial e única do sistema democrático. Quando digo deveria, digo porque eu próprio não acreditando já em quase nada do que é apresentado a escrutínio, continuo a religiosamente cumprir com o dever cívico de exercer o meu direito de voto. Entre propagandistas do olha para o que eu digo e não para o que eu faço, entre os oportunistas da altura certa para piscar o olho ao poleiro do poder, entre os discos riscados que teimam eu não passar do tempo dos LPs, entre os que sabendo da derrota certa não se coíbem em prometer o impossível, e entre os que governando se esquecem de uma boa parte da sua ideologia política, o termo Urna não poderia ter sido melhor escolhido para designar o local onde depositamos o boletim de voto, o local onde se incinera a democracia, e onde acabam por ficar depositados os restos mortais da esperança dos eleitores que cada vez menos acreditam no menos mau de todos os sistemas...

a Reentré

por António Simões, em 12.09.19

Uma vez que por estas bandas a actividade atingiu níveis verdadeiramente dignos uma tarde deitado numa toalha confortavelmente estendida nas cândidas e suaves areias de uma praia qualquer, devidamente abrigada de um desventurada brisa que pudesse interromper o doce e carinhoso torpor que a adrenalina de nada fazer desperta no mais comum dos mortais, venho por este meio tentar fazer uma espécie de Reentré, que honre os pergaminhos de todas as outras que por estas alturas surgem em catadupa. No entanto, ao contrário de todas as outras Reentrés, escrever estas linhas só me traz prazer e devolve a magia de ver espelhados num texto aquilo que pelas bandas do meu cérebro se diz e se pensa. De facto todas as Reentrés encerram consigo aspectos que nem sempre se podem ver pela perspectiva do copo meio cheio:

- o início de um novo ano escolar representa para os pais a retoma das rotinas do dia-a-dia, a luta diária por conseguir transmitir a melhor educação possível aos seus filhos, esses homens e mulheres do amanhã que fruto da tenra idade estão polvilhados da inocência única e irrepetível da infância que só se vive uma única vez, com tudo o que isso mesmo significa e por isso mesmo geneticamente se manifesta, mesmo com a mudança dos tempos e das mentalidades.

- o regresso dos partidos políticos ao activo, ainda mais agravado pelo simples facto de se encontrarem ao virar da equina novas eleições para a capoeira do poder, ocupa toda a temática subjacente aos serviços noticiosos. Os anos passam, e o sentido de votar mantêm-se, apenas moldado pela vontade cada vez maior de não gastar a caneta no momento de preencher o boletim.

- o fim das férias judiciais, interregno que só muito recentemente percebi pela vantagem que o mesmo acarreta em termos de oleamento da engrenagem da máquina da justiça. Os grandes julgamentos voltam a ocupar os jornais, mas ninguém espera que com paragem ou sem ela o destino final seja muito diferente daquilo que o ditado popular diz "a culpa morre solteira".

Assim, entre o stress de pais e angústia de crianças, entre o frenesim da imprensa e a hiperactividade dos partidos políticos, e com o regresso dos julgamentos sem fim à vista, só me resta concluir... que bem se estava no Algarve...

o mensageiro do Rei

por António Simões, em 09.05.19

Só mesmo para quem nunca leu um livro de Francisco Moita Flores é que este "Mensageiro do Rei" poderá ser uma surpresa. Para mim foi mais um tempo onde desfrutei do conhecimento histórico do autor, da sua capacidade de romancear, mas acima de tudo do seu extraordinário sentido de humor com o qual satiriza de forma única e irrepreensível uma sociedade que por si só já é uma caricatura. Francisco Moita Flores misturou um pouco da "Fúria das Vinhas" com a "Opereta dos Vadios", e para além de ficar a saber algo mais acerca do momento de viragem da Monarquia para a República, senti o ambiente dos bastidores de uma produção cinematográfica ao estilo tuga, tarefa hercúlea que exige de actores, produtores, realizadores e argumentistas uma união para ultrapassar as vicissitudes dos baixos orçamentos, tarefa facilitada porque enquanto tugas estamos mais do que habituados a fazer omeletas sem ovos. Como anti-depressivo este livro é um excelente Prozac...

ayrton Senna

por António Simões, em 01.05.19

Já passaram 25 anos desde o momento em que Ayrton Senna nos deixou. A sua partida foi do modo como sempre viveu - em velocidade. Da última vez em que fiz uma breve reflexão sobre este gigante da história do desporto mundial já decorreram 5 anos. O que então escrevi não só se mantém como amadurece com o tempo, esse belo barril de carvalho onde os sentimentos estagiam e ganham outra textura, outro sabor. O dia do trabalhador ficará para sempre ligado a todos os que seguiam a carreira do piloto brasileiro, e é quase sempre garantido que para além de outras alturas, neste dia do ano é garantido a visualização de vídeos, filmes ou reportagens sobre esse Astro, servindo para quebrar um pouco da saudade que a sua ausência nos deixou, e para alimentar a dúvida do que seria esse desporto se a bandeira axadrezada não tivesse sido lançada antes do tempo para Ayrton Senna.

a outra Mulher

por António Simões, em 25.04.19

Mais do que um novo capítulo na saga de Gabriel Allon, mantendo a sua genialidade na hora de conduzir o leitor pelos meandros do sub-mundo da espionagem, Daniel Silva volta mais uma vez a deixar o seu alerta para um mundo onde a abundância de informação desencadeia o inevitável aumento da proporcionalidade entre a tormenta informativa e o desastre desinformativo. O rigor informativo é cada vez mais difícil de escrutinar, fruto do ruído proporcionado pela mistura explosiva entre quantidade e a qualidade, traduzindo-se numa sociedade supostamente informada, que vive e convive no seio de um sentimento de segurança pintado a verniz, que a qualquer momento pode estalar. Daniel Silva mostra de forma clara, apesar de ficcional, como muita coisa grave nos passa à frente dos olhos, sem que isso nos afecte ou nos preocupe ao ponto que nos deveria de afectar e preocupar. Pelo seu passado e pelo seu trabalho de investigação é uma voz a ter em conta, tendo sempre o devido cuidado de descontar a sua quota parte de simpatia por uma fracção muito importante de toda a sua obra. Um escritor para ler e repetir!

meio século da crise Académica

por António Simões, em 17.04.19

Copio integralmente o post que publiquei em 2014 neste mesmo dia, pois o sentimento continua igual, ainda mais amadurecido pelo tempo.

”Tinha terminado uma conferência que assistia enquanto estudante. A Alta de Coimbra de 1999 muito pouco tinha mudado desde 1969, mas as pessoas essas eram outras. Isso mesmo constatei quando me deixei ficar no mesmo lugar onde estava sentado, pois de seguida iniciava-se uma palestra acerca de um tal 17 de Abril de 1969. Os meus colegas tinham saído praticamente todos, excepto eu e mais alguns, que de capa e batina orgulhosamente nos deixamos estar, para ouvir aqueles que em tempos foram estudantes, e tal como nós sabem o que significa assim se vestir. O que nós não sabíamos, ficamos a saber, mas nunca o iremos sentir, foi o que se passou naquele dia que marcou a crise académica de 69 em Coimbra. A plateia encheu-se de gente que viveu nos tempos em que para se ler um livro era preciso andar com ele às escondidas, que passava de mão em mão até ficar marcado pelo uso e abuso de quem tinha o fastio da informação e cultura, de quem não podia escolher livremente a companhia da mesinha de cabeceira. Alberto Martins proferiu um discurso que ainda hoje retenho na memória, como ficaram gravadas no coração as palavras dele acompanhadas por uma emoção que não pôde conter na hora de se recordar de todos os seus colegas que na altura, fruto da sua contestação deixaram de ser aquilo que lutavam para ser. O jovem que pediu a palavra a Américo Tomás conseguiu com a sua intervenção fazer um grupo de jovens sentir, por momentos, algo de parecido ao que essa geração de estudantes lutou. Os nossos tempos são diferentes, e hoje somos uma réstia daquilo que os nossos pais e avós foram na altura, pois apesar da liberdade ter sido conquistada, a mesma foi sonegada de outras formas bem mais perversas e contra as quais as armas são poucas, mas porra... a vontade das pessoas também não ajuda muito.”

liga dos Campeões

por António Simões, em 10.04.19

Ontem foi noite de pontapé na bola para o início dos quartos de final da competição mais falada a nível mundial e, por consequência disso mesmo, a nível europeu, podendo mesmo arriscar que esse facto acaba por fazer uma espécie de efeito dominó neste rectângulo triste e medíocre à beira-mar plantado. Pelo que vi do único jogo que me interessa, onde se encontravam frente a frente uma equipa conhecida por ser da cidade onde existe a passagem de peões mais fotografada da história da humanidade e outra equipa duma cidade que teve a honra de dar o nome ao país que tão dela se esquece, só posso concluir uma única coisa - foi um jogo de campeões. Campeões da importância do dinheiro e da sua capacidade de fazer esquecer penáltis e entradas dignas de um processo judicial de ofensa à integridade física, mas não só... Ouvir os comentários da equipa de reportagem da TVI num jogo em que estava presente uma equipa tuga, é algo verdadeiramente ofensivo, mas ao mesmo tempo tão tipicamente português, que merece estar na linha da frente da Liga dos Campeões, mas dos últimos. Ultrapassado que deveria estar o síndrome de D. Sebastião, ainda não se descobriram remédios para duas doenças nacionais: por um lado, o tradicional síndrome de inferioridade tão marcadamente tuga em que se prefere a porcaria que vem de fora preterindo tudo o que é nacionalmente bom, pensando que desse modo se é mais inteligente que os outros; por outro lado, a falta de memória e de honestidade para com ela mesma. Em jogo estava o Futebol Clube do Porto, um clube que não sendo do regime foi capaz de vergar as contrariedades auto-impostas por uma sociedade tacanha, de visões curtas e comodismo exacerbado por anos onde sempre teve alguém que por ela mesmo pensava, e que passados tanto tempo de liberdade ainda conserva de forma pútrida um conservadorismo estúpido, bacoco, mas realmente tão tipicamente tuga. Respeito se faz favor que o Futebol Clube do Porto é o melhor... carago!

o rapaz que seguiu o pai para Auschwitz

por António Simões, em 07.04.19

Não tenho nunca por guia os prémios literários, sejam eles um Nobel ou um Pulitzer, orientando-me sempre pelo momento, por aquilo que ainda não li, pelo tema ou pelo autor. Sendo neste caso o autor desconhecido, foi o tema que me levou a escolher ler este livro de Jeremy Dronfield. Já li bastante acerca da segunda guerra mundial, assunto pelo qual tenho um enorme fascínio em saber sempre algo mais acerca do acontecimento mais marcante da história universal, pois é algo que me preenche a curiosidade de como foi possível que tal tivesse acontecido, e ainda apenas só passaram 74 anos desde o momento em que terminou. No entanto por mais que leia é sempre impossível de compreender, procurando com a minha leitura prestar a minha singela homenagem a todos aqueles que lutaram e a todos os outros que claudicaram nessa batalha que revelou o que de pior e mais perverso pode sair da mente humana. Jeremy Dronfield não prestou uma singela homenagem com a escrita deste livro, pois fez muito mais do que isso ao descrever em forma de romance as agruras de uma simples família vienense durante o Holocausto, assente em testemunhos pessoais e num diário de pequenos rectângulos de papel que sobreviveu durante 6 anos de cativeiro, e contribui com o seu soberbo trabalho de investigação apresentado nesta bela obra para perpetuar não só o sofrimento e o horror desses anos de forma a que nunca ninguém se esqueça, mas também para mostrar como o amor, neste caso entre pai e filho, é uma arma tão ou mais forte que qualquer outra.

portugal - a primeira nação Templária

por António Simões, em 06.04.19

O desafio de qualquer investigador na área da história é, sem dúvida alguma, documentar-se da melhor forma possível para desse modo cimentar a sua teoria acerca do assunto sobre o qual se debruça. A neblina do tempo adensa-se ainda mais quando os assuntos envolvem matérias que deixam espaço para a imaginação, cabendo ao investigador não perder o sentido de orientação, muitas vezes abalado por convicções ou ideias pré-concebidas que podem minar o resultado final. Neste livro, Freddy Silva trouxe água para o seu moinho documentando o leitor com um livro muito atraente do ponto de vista de leitura, onde lhe tiro o chapéu na hora de reconhecer o trabalho árduo que teve enquanto investigador e pelo desafio superado de não se perder no caminho pelo qual nos elucida acerca do tema "A primeira nação Templária". Tudo aquilo que envolve as Cruzadas, a Religião e os Templários encontra-se sempre envolvido num clima de mistério, intriga e obviamente conspiração, tendo este pequeno rectângulo à beira mar plantado um papel digno de nota, pleno de achados e provas históricas da sua importância nesta Ordem que para muitos sempre foi alvo de matéria abundante para elaborar as mais fantasiosas teorias, mas que neste livro é muito bem explicada.

um botão novo, por Favor!

por António Simões, em 08.03.19

Desde já efectuando uma defesa em nome próprio, fique bem claro ao leitor que apenas vi o programa que de seguida refiro pelo simples facto do mesmo ter-me suscitado uma tremenda curiosidade. Não é todos os dias em que o Primeiro-Ministro de um país se deixa entrevistar, em ambiente familiar, ao mesmo tempo em que mostra os seu dotes culinários, facto que por si só já seria de enaltecer. Estas coisas são cada vez mais comuns entre a classe política actual, e destapar o véu da máscara pública desperta sempre aquele sentimento tão humano de voyerismo honesto sem qualquer tipo de confusão com o que esse desporto verdadeiramente encerra. Assim, recorrendo ao fantástico avanço da tecnologia audiovisual que me permite ver programas que nem sequer os deixei a gravar, como se tinha de fazer no tempo das cassetes de vídeo em que se programava a hora prevista e depois o que tinha gravado era outra porcaria qualquer porque os senhores da televisão não se deram ao trabalho de obedecer à TV Guia, vi o programa de Cristina Ferreira, onde António Costa nos presenteou uma bela cataplana de peixe. Ao princípio a curiosidade ainda se sobrepôs à estridentemente estrépita voz da apresentadora, mas ainda a caçarola ainda não tinha ido ao forno e o meu cérebro comunicou ao tímpano que estava em perigo de ruptura. Foi nesse preciso momento que pensei: um botão novo, por favor! Um botão que no lugar de silenciar o som geral nos permita escolher o que queremos emudecer. Que falta tinha feito para conseguir ver tudo até ao fim...

rebobinar o Tempo

por António Simões, em 02.03.19

Alguém terá que fazer alguma coisa para colmatar uma falha tremenda, um erro que pode ser imputado à humanidade no geral e ao ser humano em particular... Frases e pensamentos que ecoam pela eternidade possuem um rosto, um nome, um contexto, e muitas vezes até um local em concreto onde as mesmas foram proferidas. No entanto, aquilo que todos conhecemos e que nos é transmitido de geração em geração, falo da "sabedoria popular", é algo que tem uma história muito mal contada e que merece ter também pelo menos um nome. Se "um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade" ou "eu tenho um sonho" ou "Salazar? Obviamente demito-o" todos sabem quem, quando e onde se disse, a sabedoria popular também deve ter um autor(a) de frases icónicas como "Carnaval na eira, Páscoa na borralheira", "Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno" ou "Abril, águas mil". Seja a bordo de um DeLorean ou com algo do género das gravações automáticas das modernas televisões inteligentes, é necessário rebobinar o tempo e descobrir quem foi o primeiro a proferir essas pérolas da sabedoria popular, no fundo, aquele que disse algo tão inteligente que se tornou viral... sem Internet...

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